Livro de Kells

O manuscrito em velino (couro de bezerro) do Livro de Kells tem 680 páginas e é, basicamente, uma cópia ricamente ilustrada dos quatro evangelhos em latim. Esses evangelhos, por sua vez, são antecedidos por prefácios, resumos das histórias e representações dos trechos.

A origem do manuscrito é considerada um mistério. Seu estilo remonta ao século IX, no entanto, os nomes de seus criadores são desconhecidos. O que a maioria dos especialistas acredita é que o livro foi criado na ilha de Iona, costa oeste da Escócia. 

O Livro de Kells ainda está inacabado. Algumas teorias que surgem para explicar esse fato dão conta de que o projeto era ambicioso demais. Outras afirmam que talvez seus artífices tenham perecido durante um ataque dos vikings.

A parte do livro mostrada aqui é conhecida como “folha do monograma“, pois sua imagem principal é formada pelas iniciais “XP”, abreviatura para Chi-Ro, nome de Cristo em Grego. A função da página era introduzir o Evangelho segundo São Mateus, que descreve a encarnação de Jesus.

Quatro detalhes de Livro de Kells se destacam:

1. Mariposas e Crisálidas: perto do topo da página encontram-se duas mariposas, ao lado de uma crisálida. Esses são considerados símbolos religiosos pouco convencionais e referem-se ao tema do nascimento e da renovação. A palavra generatio no pé da página significa “o nascimento”.

2. Três anjos: ao lado direito do monograma aparecem três anjos. A dupla que se encontra abaixo posa longitudinalmente, enquanto o terceiro deles segura dois instrumentos usados para afastar insetos da Eucaristia e do Sacerdote.

3. Cabeça de homem: cabeças humanas estilizadas eram geralmente usadas por artesãos celtas para decorar objetos preciosos. Algumas teorias sugerem que a cabeça mostrada na obra é uma referência a Cristo.

4. Gatos e camundongos: dois gatos agarram os rabos de dois roedores que roubam a hóstia. Os felinos também têm as orelhas mordiscadas por um par de camundongos. Os desenhos podem ser alguns dos símbolos da eucaristia espalhados pelo mundo ou apenas um exemplo do bom humor pelo qual a arte insular é conhecida.

Ficha Técnica – Livro de Kells:

Autor: Artistas desconhecidos

Onde ver: Trinity College, Dublin, Irlanda

Ano: 800

Técnica: Página do Monograma, Fólio 34 recto – Manuscrito em Velino

Tamanho: 35cm x 25cm

Movimento: Arte Insular

Fonte: Universia Brasil.

Publicado em Notícias | Com a tag | Deixe um comentário

Manual para catalogação de obras raras está disponível para download

O Sistema de Bibliotecas da UFMG disponibiliza em seu site para consulta e download o Manual para entrada de dados bibliográficos em formato MARC 21: ênfase em obras raras e especiais. Elaborado com o objetivo de auxiliar os bibliotecários brasileiros no tratamento de obras raras, o Manual é o único conteúdo em português publicado no Brasil sobre o tema. A obra foi escrita pela bibliotecária do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) Maria Angélica Ferraz Messina-Ramos e contou com a colaboração das bibliotecárias da UFMG Marlene de Fátima Vieira e Maria Helena Santos.

A disponibilização do Manual tem o objetivo de possibilitar a ampla utilização do conteúdo pelas bibliotecas brasileiras, já que uma das principais ferramentas para catalogação de obras raras, Descriptive Cataloging of Rare Books (DCRB), editado pela Library of Congress, foi publicada em língua inglesa, o que constitui uma barreira linguística para a maioria dos bibliotecários brasileiros.

A primeira edição do Manual para entrada de dados bibliográficos em formato MARC 21 foi publicada no ano passado pela Editora UFMG e distribuída gratuitamente para bibliotecas com acervos raros. Essa iniciativa integra o projeto aprovado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) que contempla, além da publicação de um manual, a higienização, acondicionamento e a catalogação de parte do acervo de obras raras da UFMG.

Fonte: Sistema de Bibliotecas da UFMG.

Publicado em Notícias | Deixe um comentário

Calendário do mês de maio

Miniatura de Joanna de Castela em oração, acompanhada por João Evangelista, Livro de Horas de Joana de Castela, Bruges, ca. 1496-1506.

As Horas de Joana de Castela (também conhecido como As Horas de Joana, a Louca), é um pequeno e requintado livro de horas produzido para Joana de Castela, filha do rei Fernando de Aragão e Isabel de Castela. 

Em 1496 Joana se casou com Filipe, o Belo, filho do imperador Maximiliano, e muito embora as armas dela e de Filipe apareçam em todo o manuscrito, este deve ter sido criado entre o seu casamento e a morte de Filipe, em 1506.

O manuscrito foi personalizado cuidadosamente para Joana de Castela – alguns textos são incomuns para um Livro de Horas, o que leva a crer que muito provavelmente tenham sido escolhidos diretamente por ela. O assunto de muitas iluminuras reflete seus interesses religiosos e artísticos, e ela também aparece em duas miniaturas, incluindo a imagem acima, na qual ela está sendo apresentada para a Virgem e o Menino com São João Evangelista.

O Livro de Horas começa com um calendário, com as entradas de cada mês distribuídas em dois fólios. As listas de dias santos e de festas são rodeadas por miniaturas que descrevem uma variedade de trabalhos para cada mês.

Páginas do calendário para o mês de maio, Livro de Horas de Joana de Castela, Bruges, ca. 1496-1506.

Os temas que regem o mês de maio são o cortejo (namoro) e a caça, tanto neste calendário quanto em muitos outros. 

A folha do lado esquerdo apresenta uma miniatura de um cavalheiro e duas senhoras em uma viagem de prazer. Eles carregam instrumentos musicais e seu barco é pilotado por duas figuras grotescas. 

A folha do lado direito apresenta acima duas figuras nuas de gêmeos; abaixo observa-se outra cena de namoro, com um senhor ajoelhado diante de sua senhora. Na extrema direita são dois homens com cães e aves de rapina, provavelmente prestes a se juntar ao grupo de caça que pode ser visto nos campos acima.

O Livro de Horas de Joana de Castela faz parte do acervo de manuscritos da British Library e em breve será disponibilizado para acesso on-line. 

Fonte: British Library: medieval and earlier manuscripts blog.

Publicado em Notícias | Com a tag , | Deixe um comentário

Por que livros antigos têm o mesmo cheiro forte?

Estudo inédito mostra que é tudo uma questão de química

Quem já entrou num sebo sabe bem que os livros antigos parecem ter o mesmo cheiro. É cheiro forte, cheiro de antigo.. sabe aquele cheiro que a gente nem sabe explicar direito do que é, mas consegue reconhecê-lo à distância? Pois agora o mistério foi esclarecido por uma pesquisa da Universidade College London, no Reino Unido.

Apesar de o estudo ser inédito, a explicação é bem simples: um livro de papel é feito de material orgânico, que, por sua vez, reage ao calor, à luz, à umidade e aos químicos usados na sua produção. O cheiro característico é o resultado dessa reação, que vai ocorrendo com o passar do anos.

Além disso, o manuseio dos livros pelas mãos humanas, cheias de bactérias e substâncias, e o acréscimo de clips – que com o tempo vão oxidando – às páginas dos livros têm também parcela de ‘culpa’ na composição do cheiro de livros antigos.

O vídeo abaixo foi feito com base nessa pesquisa do Reino Unido pela livraria online AbeBooks. Confira:

Para restauradora de livros Lúcia Tomé, do Instituto de Estudos Brasileiro, a boa conservação dos livros ajuda inibir o cheiro forte e faz o material aumentar sua durabilidade. “A luminosidade em excesso desbota as capas e deixa as páginas amarelas, a umidade também pode deformar o miolo do livro. A poeira também é danosa aos livros”, explica.

A restauradora ainda completa: “o ideal é que eles fiquem organizados em um ambiente com temperatura estável e, de preferência, em pé na estante. Isso vai evitar amassamentos e páginas amareladas”.

Fonte: Revista Galileu.

Publicado em Notícias | Com a tag | Deixe um comentário

Acervo da Biblioteca Vaticana será digitalizado

ImagemTem início, na Biblioteca Vaticana, a principal iniciativa de digitalização de manuscritos e incunábulos (obras raras que datam dos primeiros tempos da imprensa). O anúncio foi feito ao jornal Vaticano L’Osservatore Romano, pelo Prefeito da biblioteca, Dom Cesare Pasini.

Ele sublinha que, juntamente com a colaboração da Bodleian Libraries, de Oxford, na Inglaterra, serão digitalizadas um milhão e meio de páginas das duas instituições, graças ao suporte da Polonsky Foundation.

Digitalizar significa conservar melhor os bens culturais, garantindo um reprodução de alto nível antes da degradação do original, deixando as obras à disposição de um maior número de pessoas”, afirma Dom Pasini. Entende-se a importância de expandir o conhecimento por meio da digitalização pelo fato de que a Biblioteca Vaticana tem 80 mil manuscritos e oito mil e 900 incunábulos.

Embora algumas obras já estejam sendo digitalizadas, prevê-se que o projeto tenha uma duração de cinco anos. Dois terços das obras que serão digitalizadas provêm da Biblioteca Vaticana. Cerca de 800 exemplares serão disponibilizados para consulta na Internet.

Fonte: Rádio Vaticano.

Publicado em Notícias | Com a tag | 1 Comentário

Mostra Virtude da Caridade em cartaz na Biblioteca Nacional

Já saiu o catálogo da mostra sobre a Virtude da Caridade, que a Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional exibe até o dia 13 de abril. Ao pio leitor… A Virtude: Caridade é Amor abre a série de mostras que vão expor acervos sobre as Sete Virtudes, ao longo dos próximos meses, na Biblioteca Nacional.

Esta primeira Mostra revela parte da preciosa Coleção de Emblematas da Biblioteca Nacional, obras de caráter moral e pedagógico, estruturadas como manuais de conduta, fundamentadas na literatura clássica ou com abordagem religiosa. Ricamente ilustradas, as emblematas foram inspiradas nas mitologias, alcançando grande popularidade na Europa dos séculos XVI, XVII e XVIII.

Baixe aqui o catálogo da mostra

Leia também: Caridade é Amor: as Sete Virtudes ganham mostras na Biblioteca Nacional

Abaixo, detalhe de uma das obras em exibição, SYMBOLA et emblemata jussu atque auspiciis sacerrimae suae majestatis augustissimi ac serenissimi Imperatoris Moschoviae Magni Domini Czaris, et Magni Ducis Petri Alexeidis…, de 1705.

Os emblemas preconizam máximas sobre o amor:

– O Amor é eterno
– O Amor não dissimula
– O Amor reúne corações
– As brigas dos amantes renovam o Amor (verso de Terêncio, em Andria, 555)
– O Amor é o bom combate
- O Amor se constroi, pouco a pouco

Fonte: Blog da BN.

Publicado em Notícias | Com a tag , | Deixe um comentário

A imprensa de Gutenberg

Johannes Gutenberg, apesar de ser considerado o inventor da imprensa, não foi propriamente o primeiro a desenvolver tal tecnologia. Hoje se sabe que os chineses haviam desenvolvido tipos móveis por volta de 1045 e que os coreanos utilizavam caracteres metálicos em vez de blocos de madeira por volta de 1230. Ao contrário das inovações surgidas no Extremo Oriente, porém, foi a invenção de Gutenberg que se propagou de forma avassaladora.

A impressão por tipos móveis, ou imprensa, é um método industrial de reprodução de textos e imagens sobre papel ou materiais similares que consiste em aplicar uma tinta, geralmente oleosa, sobre peças metálicas chamadas de tipos, que a transferem para o papel por pressão. Ainda que fosse um método artesanal, pois era preciso compor com os tipos móveis palavra a palavra, página a página, mostrou-se muito veloz e prático para seu tempo, permitindo a produção de diversos exemplares com o mesmo molde.

O primeiro livro impresso por Gutenberg foi a Bíblia, conhecida hoje como a Bíblia de Gutenberg ou a “Bíblia de 42 linhas”. A data mais provável para a publicação é entre 1452 e 1455 (não há nenhuma data no colofão, isto é, na nota informativa encontrada nas últimas páginas dos livros antigos). Uma cópia dessa Bíblia completa tem 1282 páginas e a maioria foi encadernada em pelo menos dois volumes. Acredita-se que tenham sido impressas 180 cópias, 45 em papiro e 135 em papel, e depois de impressas elas foram rubricadas e ilustradas à mão por especialistas, uma a uma, o que faz com que cada cópia seja única, um incunábulo de valor inestimável.

Exemplar da Bíblia de Gutenberg.

Há uma cópia da Bíblia de Gutenberg na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Além disso, a Universidade do Texas, em Austin, digitalizou cada página de sua cópia e disponibilizou as 1300 imagens digitais no site The Digital Gutenberg Project, acessível a qualquer internauta.

Em geral, se atribui à invenção da imprensa o marco de mais importante revolução nos suportes para a leitura, sendo que alguns chamam de livro apenas os códices impressos a partir dessa tecnologia. Roger Chartier, entretanto, em A aventura do livro, afirma que “a transformação não é tão absoluta como se diz: um livro manuscrito (sobretudo nos seus últimos séculos, XIV e XV) e um livro pós-Gutenberg baseiam-se nas mesmas estruturas fundamentais ? as do códex”. Evidentemente que, com a nova técnica, “o custo do livro diminui, através da distribuição das despesas pela totalidade da tiragem. (…) Analogamente, o tempo de reprodução do texto é reduzido graças ao trabalho da oficina tipográfica”.

É interessante percebermos, nesse sentido, que por muito tempo o códice manual tenha coexistido com o códice impresso, o que não nos permitiria falar, realmente, em uma ruptura. Nas palavras de Chartier:

“Com Gutenberg, a prensa, os tipógrafos, a oficina, todo um mundo antigo teria desaparecido bruscamente. Na realidade, o escrito copiado à mão sobreviveu por muito tempo à invenção de Gutenberg, até o século XVIII, e mesmo o XIX. Para os textos proibidos, cuja existência devia permanecer secreta, a cópia manuscrita continuava sendo a regra. O dissidente do século XX que opta pelo samizdat, no interior do mundo soviético, em vez da impressão no estrangeiro, perpetua essa forma de resistência. De modo geral, persistia uma forte suspeita diante do impresso, que supostamente romperia a familiaridade entre o autor e seus leitores e compreenderia a correção dos textos, colocando-os em mãos ‘mecanicas’ e nas práticas do comércio”

Mais do que uma revolução na forma de ler, a imprensa representou uma popularização jamais vista do livro. Foi apenas com a imprensa, por exemplo, que A Divina Comédia, de Dante Alighieri, escrita entre 1307 e 1321, tornou-se conhecida e forjou o idioma italiano.

Fora dos domínios da arte, porém, a nova técnica logo se mostrou uma ameaça ao domínio da Igreja Católica. Martinho Lutero, padre e professor de teologia alemão, em torno de 1500 d.C. começa a promover a tradução da Bíblia para outros idiomas que não o latim, e chega a dar Bíblia aos fiéis, provocando uma verdadeira convulsão na Igreja e iniciando a Reforma Protestante.

Como parte da reação da Igreja, é criado em 1559, no Concílio de Trento, o Index Librorum Prohibitorum, um catálogo de livros proibidos pela Igreja (tal catálogo foi atualizado regularmente até a trigésima-segunda edição, em 1948), evidenciando a importância que o livro já havia adquirido naquela sociedade menos de cem anos após a impressão da primeira Bíblia de Gutenberg.

Vale salientar que este tipo de catálogo é a primeira ocorrência sistemática e ordenada alfabeticamente de nomes de autores e livros, numa época anterior à valorização do trabalho do autor e muito anterior aos direitos autorais, o que significa que “antes de ser detentor de sua obra, o autor já encontra-se exposto ao perigo pela sua obra”, lembra Chartier.

Uma imagem dessa época tornou-se emblemática na história dos livros e, infelizmente, é repetida até os dias de hoje: a fogueira de livros, onde não se queimam mais (apenas) pessoas, mas suas ideias, registros e representações. Miguel de Cervantes, no célebre Dom Quixote, de 1605, tematiza tanto a ânsia pela queima de livros que assola sua época como a leituromania que toma conta de parcela da população.

Lembremos, nesse sentido, as palavras do capítulo inicial de Dom Quixote:

“Em suma, tanto naquelas leituras se enfrascou, que passava as noites de claro em claro e os dias de escuro em escuro, e assim, do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro, de maneira que chegou a perder o juízo. Encheu-se-lhe a fantasia de tudo que achava nos livros, assim de encantamentos, como pendências, batalhas, desafios, feridas, requebros, amores, tormentas, e disparates impossíveis; e assentou-se-lhe de tal modo na imaginação ser verdade toda aquela máquina de sonhadas invenções que lia, que para ele não havia história mais certa no mundo.”

A seguir, no sexto capítulo, é narrada a limpeza que o padre-cura, o barbeiro e a sobrinha de Quixote fizeram na sua biblioteca enquanto ele dormia, com diálogos interessantíssimos que evidenciam inclusive o desconhecimento e o caráter ocultista que o livro trazia para a parcela mais pobre da população, algo que em algum momento nossa geração também vivenciou em relação às tecnologias digitais.

“Pediu à sobrinha a chave do quarto em que estavam os livros ocasionadores do prejuízo; e ela a deu de muito boa vontade. Entraram todos e com eles a ama; e acharam mais de cem grossos e grandes volumes, bem encadernados, e outros pequenos. A ama, assim que deu com os olhos neles, saiu muito à pressa do aposento, e voltou logo com uma tigela de água benta e um hissope, e disse: ? Tome Vossa Mercê, senhor licenciado, regue esta casa toda com água benta, não ande por aí algum encantador, dos muitos que moram por estes livros, e nos encante a nós, em troca do que nós lhes queremos fazer a eles desterrando-os do mundo. Riu-se da simplicidade da ama o licenciado, e disse para o barbeiro que lhe fosse dando os livros a um e um, para ver de que se tratavam, pois alguns poderia haver que não merecessem castigo de fogo. ? Nada, nada ? disse a sobrinha ?; não se deve perdoar a nenhum, todos concorreram para o mal. O melhor será atirá-los todos juntos pelas janelas do pátio, empilhá-los em meda, e pegar-lhes o fogo; e senão, carregaremos com eles para o quintal e ali se fará a fogueira, e o fumo não incomodará.”

O célebre romance de Cervantes, considerado por muitos como o primeiro romance moderno da literatura, ainda revela em sua segunda parte, publicada em 1615, uma outra faceta da produção livresca desse período: a pirataria. Já no prólogo, Cervantes, dirigindo-se ao leitor, acusa a existência de continuações à revelia de sua criação, ainda que usem o nome de seu protagonista:

“(…) Mas como a virtude dá alguma luz de si, ainda que seja pelos inconvenientes e vestígios de estreiteza, vem a ser estimada pelos altos e nobres espíritos e, portanto, favorecida. E não lhes diga mais, eu quero dizer-te mais a ti, senão advertir-te que esta segunda parte de Dom Quixote que te ofereço é cortada pelo mesmo oficial e no mesmo pano que a primeira, e que te dói nela Dom Quixote dilatado, e finalmente morto e sepultado, para que ninguém se atreva a levantar-lhe novos testemunhos, pois já bastam os passados, e basta também que um homem honrado desse notícia destas discretas loucuras, sem querer de novo entrar com elas; que a abundância das coisas, ainda que sejam boas, faz com que se não estimem, e a carestia ainda das más, alguma coisa se estima.”

Primeira edição de Dom Quixote.

Robert Darnton relata, por exemplo, diferenças importantes encontradas na obra de Shakespeare, com trechos distintos de uma edição para a outra: “qual escolher? Não podemos saber a intenção de Shakespeare, pois nenhum manuscrito de suas peças sobreviveu”. Segundo o autor, a solução era identificar trechos deturpados nas primeiras versões impressas, e assim foi identificado determinado tipógrafo que “compôs outros nove quartos de peças shakespearianas ou pseudoshakespearianas, usando edições mais antigas como base. Ao encontrar uma frase que considerava deficiente, ele a ‘melhorava’”.

Não que esse tipo de problema não acontecesse no tempo dos escribas. Como lembra Chartier, “a mão do escriba pode falhar e acumular os erros”. Na era do impresso, entretanto, “a ignorância dos tipógrafos ou dos revisores, como os maus modos dos editores”, trazem riscos ainda maiores: “de modo geral, persistia uma forte suspeita diante do impresso, que supostamente romperia a familiaridade entre o autor e seus leitores e compreenderia a correção dos textos, colocando-os em mãos ‘mecânicas’ e nas práticas do comércio”.

De qualquer forma, com ou sem erros dos tipógrafos, o livro se consolida como um objeto importante para a sociedade moderna que se forma, com seus povos e línguas próprios, acumulação de riquezas estatais e particulares, lutas por espaços e exploração dos mares, perda da hegemonia católica, efervescência cultural renascentista, consolidação das Universidades e expansão da alfabetização. Mais do que registrar a cultura e as ideias de sua época, o livro impresso permite a propagação dessas ideias, e a quantidade de suas edições fez com que alguns exemplares se conservassem até os séculos seguintes, criando aos poucos um cânone fundamental para se pensar numa literatura ocidental.

Não por acaso, Harold Bloom, ao listar os cem maiores escritores de todos os tempos no seu polêmico Genius: a mosaic of one hundred exemplary creative minds, cita apenas onze autores anteriores à invenção da imprensa de Gutenberg ? incluindo Dante, Maomé, o apóstolo Paulo, Platão e Homero ? e oitenta e nove posteriores ao livro impresso. Poderíamos afirmar que foi o livro impresso que forjou a figura do escritor, e ainda precisariam mais alguns séculos para forjar também a profissão de escritor.

Chegamos, assim, no alvorecer da era das máquinas, símbolo central do período histórico que ficou conhecido como Revolução Industrial.

Autor: Marcelo Spalding / Fonte: Histórica.

Publicado em Notícias | Com a tag | Deixe um comentário